Tempestades e Cheias no Centro de Portugal: O Papel dos Drones na Documentação Sistemática dos Danos
Introdução
O inverno de 2026 ficará marcado na memória coletiva dos portugueses como uma das épocas mais devastadoras das últimas décadas. Entre o final de janeiro e meados de fevereiro, um verdadeiro “comboio de tempestades” — Kristin, Leonardo e Marta — atravessou o território nacional de oeste para leste, deixando um rasto de destruição que atingiu particularmente a região Centro do país.
O balanço é terrível: pelo menos 16 vítimas mortais, centenas de feridos e desalojados, milhares de ocorrências registadas pela Proteção Civil e prejuízos estimados em 775 milhões de euros. Mais de 3 000 pessoas foram evacuadas na área de Coimbra quando o rio Mondego atingiu níveis críticos, e cerca de 33 000 ficaram sem eletricidade. O Governo declarou 68 municípios em situação de calamidade e anunciou um pacote de apoio de 2,5 mil milhões de euros.
Perante a dimensão da catástrofe, a necessidade de avaliar os danos de forma rápida, precisa e abrangente tornou-se imperativa. Foi aqui que os drones — e a tecnologia que a Vanguardista domina e aplica diariamente em levantamentos topográficos e inspeções — desempenharam um papel fundamental.

O Fenómeno Meteorológico: O “Comboio de Tempestades”
O que tornou este evento tão particularmente destrutivo foi a sua natureza sucessiva. Não se tratou de uma tempestade isolada, mas de uma sequência contínua de depressões atlânticas que se foram sucedendo umas às outras, circulando sempre no mesmo trajeto.
A primeira grande tempestade, Kristin, atravessou o território português no final de janeiro com uma violência que a meteorologista Maria João Fraga, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), classificou como a mais agressiva em três décadas de carreira: “Desde que sou meteorologista, nunca vi [algo] tão devastador”. Ventos superiores a 200 km/h e precipitação persistente provocaram quedas de árvores, estradas cortadas, casas danificadas e longos cortes no fornecimento de eletricidade. As regiões de Leiria e do Oeste foram as mais afetadas.
Quando o país ainda tentava recuperar, chegou a depressão Leonardo. Menos violenta em termos de pico de vento, mas igualmente devastadora por atingir solos já saturados, agravando os danos existentes e provocando novas inundações. Só nas primeiras horas da sua passagem, a Proteção Civil registou mais de 100 ocorrências.
A estes seguiu-se a depressão Marta, prolongando a instabilidade e a tragédia. Como explicou a meteorologista Maria João Fraga à ONU News, este “comboio de tempestades” resultou de uma vasta região depressionária formada no Atlântico Norte, agravada pelo facto de o anticiclone dos Açores — que normalmente protege Portugal das tempestades de inverno — estar fora da sua localização habitual e bastante enfraquecido.
Os meteorologistas do IPMA acrescentaram que as tempestades foram alimentadas por um “rio atmosférico”, uma corrente de humidade vinda do Atlântico subtropical que produziu precipitação persistente e intensa. Nas zonas montanhosa do Centro, registaram-se acumulados de precipitação entre 150 e 200 milímetros ao longo de vários dias. Alguns destes sistemas sofreram ainda “ciclogénese explosiva”, um processo em que a pressão atmosférica desce muito rapidamente, intensificando os ventos e a precipitação num curto espaço de tempo.
O Impacto na Região Centro
A região Centro de Portugal foi particularmente fustigada. Os distritos de Leiria, Coimbra, Santarém e Castelo Branco relataram as maiores perdas.
Coimbra viveu momentos de pânico. O rio Mondego atingiu níveis críticos, forçando a evacuação de mais de 3 000 pessoas. Um dique no Mondego cedeu sob o peso das águas, provocando o colapso de parte da autoestrada A1, a principal via rodoviária do país. As cheias causaram danos em infraestruturas, incluindo estádios e aeronaves.
Montemor-o-Velho viu as suas ruas transformadas em rios. Imagens captadas por drone mostraram um carro em cima de um contentor e destroços espalhados pela água. Em Alcácer do Sal, a zona ribeirinha ficou totalmente inundada, com estradas, habitações e estabelecimentos submersos. Dezenas de pessoas tiveram de ser retiradas das habitações. O concelho de Sardoal, na região do Médio Tejo, contabilizou prejuízos superiores a 1,3 milhões de euros, com 19 ocorrências registadas, incluindo dez inundações de superfície.
As consequências materiais foram extensas: queda de árvores e estruturas, encerramento de estradas, escolas e serviços de transporte, cortes de energia, água e comunicações, inundações e cheias. As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo, e Alentejo foram as mais afetadas.
O Papel dos Drones na Documentação Sistemática dos Danos
Perante a magnitude da catástrofe, os métodos tradicionais de avaliação de danos revelaram-se insuficientes. Equipas no terreno, por mais numerosas que fossem, não conseguiam cobrir a extensão territorial afetada nem fornecer uma visão panorâmica da situação em tempo útil. Foi neste contexto que os drones se afirmaram como uma ferramenta indispensável.
1. Monitorização em Tempo Real da Evolução das Cheias
A empresa portuguesa Beyond Vision, sediada em Alverca, mobilizou cinco drones autónomos para sobrevoar as zonas mais afetadas pelas tempestades. A tecnologia, fabricada em Portugal, foi utilizada para fornecer informação sobre falhas energéticas e a evolução das cheias à Proteção Civil, à E-Redes, à EDP e a diversas câmaras municipais.
Carlos Dionísio, consultor da Beyond Vision com carreira militar, explicou a missão: “O objetivo é verificar as situações da rede elétrica quer de baixa, média ou alta tensão para obter uma consciência situacional”. E acrescentou: “Para se tomar decisões e se fazer alguma coisa é preciso saber o que se está a passar. Nestes casos extremos, tem de se estabelecer prioridades de intervenção, de apoio às populações e garantia do funcionamento do essencial (água, energia e comunicações)”.
Os drones operaram em vários pontos críticos da região Centro, nomeadamente em Pombal, no Entroncamento, na Atalaia, na Batalha, em Constância e na Sertã. Em alguns casos, as imagens foram transmitidas em tempo real, permitindo às autoridades uma perceção imediata da situação. A rápida mobilização dos meios aéreos não tripulados demonstrou a mais-valia da tecnologia de ponta: um dos drones que estava prestes a ser entregue a um cliente na Arábia Saudita acabou por ser retido em Portugal para apoiar as operações de emergência.
2. Avaliação de Danos em Infraestruturas Críticas
A dimensão dos danos nas infraestruturas elétricas foi particularmente grave. As tempestades cortaram a eletricidade a milhares de pessoas, principalmente nos distritos de Leiria, Santarém, Castelo Branco e Coimbra. A inspeção manual de mais de 210 quilómetros de linhas elétricas seria impraticável num curto espaço de tempo.
Os drones permitiram inspecionar estas infraestruturas de forma rápida e segura, identificando postes caídos, cabos partidos e outros danos que comprometiam o restabelecimento do fornecimento elétrico. Esta capacidade de diagnóstico acelerado foi decisiva para priorizar as intervenções das equipas de reparação e reduzir o tempo de interrupção do serviço essencial.
Paralelamente, os drones apoiaram a inspeção de mais de 240 infraestruturas habitacionais e serviços públicos, permitindo avaliar a segurança estrutural de edifícios afetados pelas cheias e ventos fortes.
3. Mapeamento da Extensão das Inundações
As imagens aéreas captadas por drones tornaram-se um registo visual inequívoco da dimensão da catástrofe. Em Alcácer do Sal, as imagens de drone mostraram a extensão da área inundada, com a zona ribeirinha completamente submersa. Em Samora Correia, um piloto profissional certificado de drone FPV filmou a vastidão da área afetada na várzea.
Estes levantamentos aéreos não serviram apenas para documentar a tragédia para os média e a opinião pública. Foram igualmente utilizados para cartografar a extensão exata das cheias, informação essencial para o planeamento das operações de socorro e, mais tarde, para a avaliação dos prejuízos e a atribuição de apoios.
A esta capacidade juntou-se a monitorização por satélite do Copernicus Emergency Management Service (EMS) , ativado em 28 de janeiro para mapear a extensão das cheias em Portugal e Espanha. O Copernicus produziu mapas que mostraram, por exemplo, que em Salvaterra de Magos inundaram mais de 64 mil hectares até ao dia 8 de fevereiro. A conjugação de dados de satélite com imagens de drones deu às autoridades uma visão de múltiplas escalas — desde a visão global do satélite até ao detalhe centimétrico proporcionado pelos voos de drone.
4. Apoio às Operações de Busca e Salvamento
Os drones não se limitaram à avaliação de danos. Foram também empregues em operações de busca de desaparecidos. Em Espanha, uma equipa de mais de 30 pessoas utilizou helicópteros e drones para procurar uma mulher desaparecida ao longo do curso de um rio. Em Portugal, as autoridades mobilizaram equipas cinotécnicas, drones e botes de salvamento numa corrida contra o tempo para localizar pessoas dadas como desaparecidas.
O dispositivo global de resposta às cheias integrou 549 militares e elementos da Polícia Marítima, apoiados por 69 viaturas, 56 embarcações, cinco geradores, 17 drones e um helicóptero em prontidão permanente. Este dispositivo percorreu mais de sete mil quilómetros em ações de reconhecimento, tendo já resgatado 273 pessoas por via fluvial e removido 400 toneladas de detritos.
Desafios e Limitações
A utilização de drones em cenários de catástrofe não está isenta de desafios. Como reconheceu Carlos Dionísio, da Beyond Vision, nem sempre é fácil colocar os veículos autónomos perto dos rios devido à chuva e às rajadas de vento forte. As condições meteorológicas adversas que causaram a catástrofe são, paradoxalmente, as mesmas que dificultam as operações aéreas de socorro.
Além disso, a empresa salientou que “não somos uma corporação nem uma instituição que esteja preparada para este tipo de reação rápida ou imediata”. A resposta a situações de emergência exige uma capacidade de mobilização que nem sempre está disponível, especialmente quando as empresas têm as suas operações normais a decorrer e quadros fora do país.
Apesar destas limitações, a experiência demonstrou que os drones são um recurso insubstituível em situações de catástrofe — desde que existam equipas preparadas, pilotos certificados e uma coordenação eficaz com as autoridades.
O Valor da Documentação Sistemática
Para além do socorro imediato, os drones desempenharam um papel crucial na documentação sistemática dos danos. Esta documentação tem múltiplas utilidades:
- Subsídio à avaliação de prejuízos — imagens e dados georreferenciados permitem quantificar com precisão os estragos em habitações, empresas e infraestruturas públicas, fundamentais para a atribuição de indemnizações e apoios.
- Planeamento da reconstrução — o mapeamento aéreo antes e depois das cheias permite identificar as áreas mais vulneráveis e planear intervenções estruturais.
- Memória institucional — o registo visual da catástrofe serve de base para estudos futuros e para a definição de políticas de prevenção.
- Transparência e prestação de contas — as imagens de drone oferecem um registo objetivo e verificável da dimensão dos danos, essencial para a gestão dos fundos públicos e europeus.
O Copernicus EMS, por exemplo, produziu 273 mapas para dar às autoridades nacionais informação atempada sobre a extensão das cheias. Esta produção massiva de dados geoespaciais representa um salto qualitativo na forma como Portugal e a Europa gerem catástrofes naturais.
Lições para o Futuro
As tempestades de 2026 expuseram a vulnerabilidade de Portugal a fenómenos climáticos extremos. Como alertou o físico atmosférico Pedro Matos Soares, da Universidade de Lisboa: “Não estamos preparados para o clima do presente, muito menos para o do futuro. Portugal continua a fazer planeamento territorial a pensar no clima do século XIX ou da primeira metade do século XX. Temos de perceber como é o clima agora e como será no futuro. Caso contrário, vamos ter um problema”.
Os cientistas sublinham que, embora não se possa atribuir diretamente cada tempestade individual às alterações climáticas, as projeções científicas apontam consistentemente para um aumento da intensidade dos episódios de precipitação extrema à medida que as temperaturas dos oceanos e do ar aumentam.
Neste contexto, os drones não são apenas uma ferramenta de resposta a emergências. São também um instrumento de prevenção e adaptação. A capacidade de monitorizar regularmente linhas de água, barragens, encostas e infraestruturas críticas permite identificar atempadamente situações de risco e atuar antes que a tragédia aconteça.
Como sublinhou o especialista Alfeu Sá Marques, antigo professor da Universidade de Coimbra, Portugal está a pagar décadas de erros no ordenamento do território e na gestão dos rios. “Enquanto não nos preocuparmos seriamente com a ocupação do solo, não conseguimos resolver o problema das cheias”. Os drones, ao fornecerem dados precisos e atualizados sobre o território, podem ajudar a inverter esta tendência, alimentando modelos de planeamento mais informados e resilientes.
Conclusão
As tempestades Kristin, Leonardo e Marta que assolaram o centro de Portugal no inverno de 2026 ficarão na história como um dos maiores desafios climáticos enfrentados pelo país. A dimensão dos danos — 16 mortos, centenas de desalojados, 775 milhões de euros em prejuízos — exige uma reflexão profunda sobre a forma como nos preparamos e respondemos a fenómenos extremos.
Os drones demonstraram, nesta crise, o seu valor inestimável. Desde a monitorização em tempo real da evolução das cheias até à inspeção de centenas de quilómetros de infraestruturas elétricas, passando pelo mapeamento da extensão das inundações e o apoio às operações de busca, a tecnologia aérea não tripulada provou ser uma ferramenta indispensável para as autoridades e para as populações.
Na Vanguardista, acreditamos que a tecnologia, quando bem aplicada, amplia capacidades humanas e transforma dados em decisões mais inteligentes. As lições deste inverno são claras: precisamos de investir em sistemas de monitorização mais robustos, em equipas preparadas e numa cultura de prevenção que antecipe o risco em vez de apenas reagir à catástrofe.
Os drones não evitarão as tempestades. Mas podem ajudar-nos a enfrentá-las com mais informação, mais rapidez e mais eficácia. E isso, em situações de vida ou morte, faz toda a diferença.
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